
Por certo este post chega agora com algum atraso, mas já que, como se repetissem constantemente que não gostariam de ser esquecidas, as impressões que Avatar me causaram volta ou outra tornam a povoar a minha cabeça, resolvi externá-las. Isto pode ajudá-las a eternizarem-se, como possivelmente desejam.
É extremo consenso que Avatar é um filme com um visual impressionante, não ouvi ainda qualquer comentário que não valorizasse a exuberante beleza do mundo Na’vi. O que não é consonante é aquilo que está para além do que o olhar sensível é capaz de captar. A beleza dos Na’vi não está apenas na exuberância do seu mundo, eles são dotados de uma pureza que não é ingênua, senão sábia. Sua conexão com a natureza é tão real, tão presente em suas vidas que chega a ser explicitamente física. Na verdade, a oposição homem-natureza deixa de existir no universo Na’vi. O pretensioso egocentrismo humano, que supõe ser a cultura algo diverso da natureza, que está acima dela e a domina, não é sequer imaginável para essa sociedade. Ali o homem se reconhece no mundo, percebe em si mesmo, em seu modo de vida, em sua capacidade de pensar e de ser humano uma das infinitas formas de expressão do universo.
Jake Sully chega neste lugar como um ser puro, mas ingênuo, infantil. Com o passar do tempo ele próprio aprende, amadurece, e se torna sábio. Dentre os mais importantes ensinamentos passados a Jake está a capacidade de domínio do instinto animal, desde o mais simples e fácil de domesticar ao mais livre e selvagem. Isto não sem alguma luta. Quem viu o filme, e quase todos o fizeram, pôde acompanhar Jake inicalmente tentando dominar o cavalo, a necessidade de estabelecer uma conexão com o animal para dominá-lo, e quando Jake o consegue e seus pensamentos assumem o comando do animal, temos uma rica expressão metafórica da superioridade do mental sobre o emocional, da capacidade do mental de assumir o controle quando verdadeiramente o queremos. Jake não encontra grande dificuldade para dominar o animal terreno, de instinto doméstico e pouco livre, o grande desafio dos Na’vi é o animal alado, selvagem, arisco e de alta mobilidade. Em outras palavras, os instintos mais fortes, que são geralmente mais difíceis de serem controlados. Para isto é preciso já ter alguma maturidade e lançar-se em uma luta hostil, que pode levar a um enorme precipício.
Outra correlação interessante com a nossa realidade é a presença das instituições que representam o Estado, a iniciativa privada e a ciência. Todas morrem, mesmo a ciência. Esta, apresentada sob um arquétipo positivo na figura da Dra. Grace, não deixa de ser uma instituição fundamentalmente materialista. O homem se define como um ser racional, habilitado para a vida em cultura, em sociedade. Apartado da natureza, ele antes se sobrepuja a ela, constrói grandes edifícios e monumentos que marcam sua história. Frequentemente, no entanto, o tempo vem lhe dizer que suas construções se deterioram, suas instituições se corrompem, se esvaziam em sentido e perdem seus objetivos, sua superioridade racional é traída por sua própria natureza pensante. Sim, sua natureza, e falamos em natureza enquanto universo, corpo único, repleto e coordenado, que contém em si uma enorme diversidade, inclusive a diversidade pensante. As instituições são passageiras e bem o sabem os Na’vi, valorizam o transcendente, a relação e o respeito com o outro, porque conhecem sua profunda ligação com o todo. Mentes poderosas, não podem ser ditos fracos, sequer primitivos. São evoluídos, são elevados, grande parte da beleza visual que se oferece neste filme é construída pela própria expressão psíquica e cultural do povo Na’vi. A expressão maldosa, quando bela, disseca boa parte desta beleza que lhe envolve, mas quando o bom se une ao belo, torna-se magnífico. Saí do cinema com vontade de ser azul.
Interessante a tua fala, pq o embate entre cultura (eu diria até civilização, mais do que cultura em si) e natureza que você aponta me fez lembrar muito o MobyDick, do Herman Melville. É como se os Na’vi azuis fossem um cardume de baleias cachalote brancas, todas contra o civilizado e racional capitão Ahab. Avatar tem uma linha narrativa muito próxima a MobyDick desse ponto de vista.
Sobre a cena do cavalo, me evoca a condição dos centauros (ou sagitários), com o mental dominando o emocional ou terreno. E, por isso, é difícil dominar o “aéreo”: porque o ar é elemento do mental. Dominar o “ar” é dominar o próprio mental, é conquistar a sabedoria.
Por fim, “iniciativa privada”, “ciência” e “Estado” (na figura das “Forças Armadas”, que são apenas um braço do Estado, é claro) são representações idílicas de castas. E uma casta não pode aniquilar a outra, porque, em última instância, sua existência é dependente da de sua concorrente direta.