A metáfora criadora: Nietzche e o deslocamento do conceito de Deus para a metáfora do super-homem
Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche faz uso de um encadeado jogo de ricas metáforas para trazer à tona alguns temas recorrentes em sua filosofia, dentre eles o uso da metáfora como recurso de criação de sentidos. Ali, o filósofo não trata diretamente da metáfora, mas se faz expressar o tempo todo através dela. É por intermédio dela que, em uma crítica ao cristianismo e à dualidade metafísica, Zaratustra anuncia a morte de Deus. Este, como conceito primordial que simboliza a essência e a verdade para além do mundo sensível – que, em uma visão cristã, é um mundo maiávico, perene, que se contrapõe à eternidade e à infinitude do paraíso divino -, afirmando a existência de um mundo superior, perfeito e imutável, é, por esse aspecto, a própria face do desprezo pela vida, pelo fluxo da realidade terrena.
Em seu escrito “Sobre a verdade e a mentira em sentido extramoral”, Nietzsche valoriza a metáfora em detrimento do conceito, o qual se estabelece socialmente como verdade absoluta através do esquecimento da própria origem metafórica do conceito. Esta origem reside no impulso de dar nome às coisas, que não é senão um impulso criador, um processo de abstração metafórica que nomeia objetos que nada contém em si daquele som que se cristalizará em conceito da coisa nomeada. O impulso de dar nome é seguido de um outro instinto, o instinto da busca pela verdade. É exatamente este instinto que promove o esquecimento da origem e a cristalização da metáfora em conceito.
A grande questão trazida por Nietzsche é que este esquecimento do acordo inicial é o próprio pai de toda moralidade. É através dele que se criam verdades, conceitos rígidos e imutáveis. Voltando a Zaratustra, é então que anunciando a morte de Deus, ele anuncia, em verdade, a morte da moralidade cristã. No entanto, sob o risco de cair em uma compreensão niilista, Nietzsche sustenta sua idéia da transvaloração dos valores, isto é, a criação de novos valores, novos sentidos e novas interpretações. E se já não é Deus quem dá sentido ao mundo, então há que ser o próprio homem. E não mais um único sentido será o bastante, porque agora são múltiplos os caminhos e as possibilidades. O poder criador é o próprio sentido, criar é transvalorar, é mudar, é fluir, é construir o novo. E o poder criador será trazido por Nietzsche na convocação da metáfora do super-homem. Agora já não há ausência de sentido, o vazio niilista foi preenchido. O super-homem é aquele que pode construir e desconstruir mundos, que pode inventar-se a si mesmo, que pode colorir de sentidos o universo, ele é aquele que detém a criadora pulsão metafórica, é o novo criador, o homem se tornou Deus.
Tomando o homem como criador e criatura de si mesmo, Nietzsche distancia-se do conceito de um Deus externo, perfeito e inalcançavel, que pode apenas ser amado e obedecido. Afastando-se da idéia de homem como seguidor, o filósofo desloca o conceito de Deus, transmutando-o na metáfora do super-homem. O super-homem, por sua vez, não é também algo de absoluto que existe em algum lugar dentro do homem, ele coincide com o próprio homem e toda a sua pulsão criadora. A capacidade de metaforizar, de trazer sempre novos e outros sentidos, de interpretar e tomar diferentes direções nas leituras sobre o mundo é o que torna o homem criador, é o que o faz um super-homem.




Interessante a tua fala, pq o embate entre cultura (eu diria até civilização, mais do que cultura em si) e natureza que você aponta me fez lembrar muito o MobyDick, do Herman Melville. É como se os Na’vi azuis fossem um cardume de baleias cachalote brancas, todas contra o civilizado e racional capitão Ahab. Avatar tem uma linha narrativa muito próxima a MobyDick desse ponto de vista.
Sobre a cena do cavalo, me evoca a condição dos centauros (ou sagitários), com o mental dominando o emocional ou terreno. E, por isso, é difícil dominar o “aéreo”: porque o ar é elemento do mental. Dominar o “ar” é dominar o próprio mental, é conquistar a sabedoria.
Por fim, “iniciativa privada”, “ciência” e “Estado” (na figura das “Forças Armadas”, que são apenas um braço do Estado, é claro) são representações idílicas de castas. E uma casta não pode aniquilar a outra, porque, em última instância, sua existência é dependente da de sua concorrente direta.